A PESQUISADORA QUE TRANSFORMOU DÉCADAS DE LABORATÓRIO NA PRIMEIRA VACINA 10% BRASILEIRA CONTRA A DENGUE: "A NOVA VACINA É MUITO PROMISSORA, E A DENGUE PASSARÁ POR MUDANÇA DE PARADIGMA"

 



 Neuza é a pesquisadora à frente da vacina — Foto: Divulgação/Butantan


A pesquisadora que transformou décadas de laboratório na primeira vacina 100% brasileira contra a dengue

Neuza Frazzati liderou no Instituto Butantan o desenvolvimento do primeiro imunizante nacional e de dose única contra a dengue, que já começou a ser aplicado no país após demonstrar alta eficácia contra casos graves.

Por Poliana Casemiro

12/03/2026 04h01  Atualizado há um mês

Imagina você descobrir uma forma de proteger milhões de pessoas e evitar milhares de mortes?

Durante anos, a pesquisadora Neuza Frazzati trabalhou em silêncio nos laboratórios do Instituto Butantan para enfrentar um velho conhecido do Brasil: a dengue. O resultado desse esforço chegou à população nas últimas semanas, com o início da aplicação da primeira vacina 100% brasileira e de dose única contra a doença.

📈 Desde os anos 2000, mais de 18 mil pessoas morreram por dengue no país e outras 25 milhões já tiveram a doença – o que pressiona o sistema de saúde.

A dengue é considerada uma doença negligenciada. Como afeta países tropicais e em desenvolvimento, durante décadas houve pouca pesquisa para frear o avanço da doença. Mas, agora, o Brasil tem uma solução nacional: a Butantan-DV é a única vacina contra a dengue de dose única no mundo.

À frente do desenvolvimento está Neuza, pesquisadora que entrou no Butantan na década de 1980 e construiu a carreira desenvolvendo vacinas. Para ela, o projeto da dengue é mais do que um marco científico, mas uma forma de amenizar o sofrimento e evitar mortes no país.

Todo mundo vem aqui nessa vida com alguma missão que a gente precisa descobrir qual é. Acho que encontrei a minha, deixar uma vacina de dengue que pode amenizar o sofrimento das pessoas



— Neuza Frazzati, pesquisadora à frente da vacina contra a dengue

A vacina demonstrou eficácia de cerca de 75% contra a doença e superior a 90% contra formas graves e hospitalizações — um dado relevante em um país que convive há décadas com surtos sucessivos com milhões de casos. O estudo foi conduzido com mais de 16 mil pessoas, acompanhadas por anos.

Há décadas pesquisadores tentam achar uma solução para a doença no país. Agora, a vacina de Neuza pode, finalmente, criar um futuro para o país com uma redução drástica de casos e zerar as mortes.

O imunizante começou a ser distribuído pelo Brasil nas últimas semanas. Por enquanto, ainda está em uma fase prioritária, mas segundo o Ministério da Saúde deve chegar às pessoas de 15 a 59 anos até o segundo semestre deste ano.



Pesquisadora dedicou anos de pesquisa no desenvolvimento de imunizantes — Foto: Kaique Mattos/g1

A mulher por trás da vacina da dengue

Neuza é bióloga por formação e doutora em Biotecnologia pela Universidade de São Paulo. Ela conta que escolheu a biologia por amar os animais e a pesquisa em vacinas pela necessidade de ajudar pessoas.

Quando chegou ao Butantan, em 1980, Neuza começou trabalhando com influenza. Ela conta que o laboratório ao lado do dela fazia pesquisas por uma vacina contra a raiva em humanos. Para isso, eram usados camundongos, quase mil animais por semana.

Eu falava: ‘Meu Deus, a gente tem que mudar isso de alguma maneira'.



— Neuza Frazzati, pesquisadora à frente da vacina contra a dengue

O incômodo acabou se transformando em um projeto. Ela passou a pesquisar uma tecnologia em que não precisasse sacrificar animais. Foram dez anos de trabalho até que a vacina contra a raiva desenvolvida por ela fosse licenciada pela Anvisa, em 2008.

➡️ O que ela fez naquele ano foi inédito: em vez de utilizar tecidos de origem animal, como era feito tradicionalmente, o vírus passou a ser cultivado em células Vero — um tipo de linhagem celular estável, obtida originalmente a partir de rins de macaco-verde-africano e mantida em bancos internacionais de pesquisa. Isso rendeu a ela o prêmio Péter Murányi-Saúde, um reconhecimento internacional pelo trabalho.

A experiência acumulada ali — cultivo viral, estabilidade, testes e exigências regulatórias — seria decisiva anos depois, quando ela se desafiou a desenvolver uma vacina de dose única contra a dengue.



Vacina começou a ser distribuída pelo país — Foto: Reprodução

Como a vacina contra a dengue foi feita

Entre 2006 e 2007, o país enfrentava uma alta nos casos de dengue, com mais de 800 mortes. Foi quando ela recebeu um novo desafio: desenvolver um imunizante que protegesse a população.

💉 Mas a vacina representava um desafio ainda maior: o vírus da dengue circula em quatro sorotipos diferentes e uma vacina precisa proteger contra todos eles sem provocar desequilíbrios na resposta imunológica.

Eu lembro que na época as pessoas confiavam em mim para esse processo e eu falava: isso é muito complexo para mim. Cheguei a duvidar, mas eu nunca desisti.

— Neuza Frazzati, pesquisadora à frente da vacina contra a dengue

O trabalho começou no laboratório, com o cultivo dos vírus e uma sequência de ajustes até alcançar a fórmula que hoje chega aos postos.

Neuza conta que via os jornais anunciando o aumento no número de mortes e casos da doença e se desafiou a não descansar até ter uma resposta. Para isso, trabalhou muitos fins de semana, feriados e passou noites em claro.

A pesquisa começou com uma equipe pequena e, conforme os resultados apareciam e a dengue crescia no Brasil, a equipe aumentava. Ao todo, foram quase 50 pessoas sob seu comando.

O segundo maior desafio foi a estabilidade. Na forma líquida, o vírus não se mantinha viável pelo tempo necessário dentro do imunizante. A vacina viajaria por um país de dimensões continentais e de realidades diversas. Nem sempre os postos têm o transporte refrigerado ou a geladeira necessária.

💉 Foi quando conseguiu a liofilização. Em geral, as vacinas têm a forma líquida. Mas, nesse caso, ela seria transformada em pó e só voltaria a ser líquida na hora de aplicar. Isso facilitaria o transporte.

Foram quatro anos de pesquisa em laboratório com mais de 200 experimentos até chegar à Butantan-DV. Em 2011, Neuza e sua equipe tinham em mãos uma vacina eficaz contra todas as cepas e de dose única – o que era primordial para eles, já que queriam ampliar e facilitar a adesão.

Neuza está à frente da vacina da dengue — Foto: Kaique Mattos/g1

➡️ E você pode se perguntar: por que já em 2011 essa vacina não estava disponível? Porque para que um medicamento ou um imunizante possa ser distribuído, ele precisa passar pela aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A vacina passou por todas as fases de estudos clínicos exigidas para qualquer imunizante: avaliação de segurança, resposta imunológica e eficácia em voluntários. Só após a conclusão dessas etapas e a análise regulatória o produto pôde começar a ser aplicado na população.

De forma prática, o desenvolvimento da vacina contra a dengue levou quatro anos. Para quem vê de fora, pode parecer pouco tempo diante da complexidade do desafio.

➡️ A resposta para isso está justamente nas mãos e na mente de Neuza: tudo que ela aprendeu enquanto tentava resolver o problema da raiva e do rotavírus, vacina que ela desenvolveu depois, levou a uma resposta mais rápida para a dengue.

Eu acho que a experiência é o maior valor que a gente adquire nessa vida. Porque quanto mais experiente, mais a gente tem condições de se doar, né? A gente vai aprendendo a cada passo, a cada erro, a cada vitória, a gente vai se moldando. Eu fiz mais rápido o que poderia levar anos, mas porque dediquei muitos anos antes. Nada foi feito com pressa.

— Neuza Frazzati, pesquisadora à frente da vacina contra a dengue

Neusa ainda se emociona ao lembrar de todos os que assinam junto com ela esse feito. “Não conseguiria nada sozinha”.

Vacina no braço

No fim de 2025, a Anvisa aprovou a vacina e em janeiro deste ano as primeiras doses foram distribuídas. Para a pesquisadora, isso mostra a força da ciência nacional e um marco na própria história – apesar de estar ligada a tantas outras vacinas.

“Acho que todo mundo tem uma missão na vida e a minha foi essa. Sabe quando você chega na minha idade e pensa: acho que eu fiz alguma coisa pelas pessoas.

— Neuza Frazzati, pesquisadora à frente da vacina contra a dengue

O imunizante já está nos postos de saúde, mas, por enquanto, apenas para um grupo prioritário, que envolve profissionais da saúde. Até o segundo semestre, deve chegar às unidades pelo país para a população em geral, segundo o Ministério da Saúde.

Hoje, o Brasil tem uma vacina contra a dengue no SUS, a Qdenga. Desde que iniciou a imunização, o Brasil tinha um desafio: o número de doses e o custo.

Para você entender melhor:

  • 💉 A vacina é importada e como a dengue é uma doença negligenciada, não havia volume suficiente de doses vindas do laboratório, ainda que o Brasil quisesse comprar.
  • 💉 Para além disso, ela é aplicada em duas doses. O que aumentava ainda mais a necessidade de vacinas, não sendo possível ter uma cobertura maior da população.
  • 💉 Outro desafio era o custo. Como é importada, comprar todas essas doses custava mais caro ao país.

“É um orgulho saber que a ciência nacional construiu algo que vai ajudar tantas pessoas, evitar mortes, dor, sofrimento e custo para o nosso sistema de saúde”, comenta.

Neusa explica que a vacina é a melhor chance do país contra a doença. Com a imunização de 50% da população, é possível uma queda drástica no volume de casos. Para se ter uma ideia, em 2025 foram 1,4 milhão de casos.

Quando houver uma cobertura vacinal completa, é possível que o país zere o número de mortes, que em 2025 foi de 1,7 mil pessoas.

Erradicar a doença é difícil porque isso depende da circulação do mosquito, o que é mais difícil de controlar com o cenário tropical, e cada vez mais quente, do Brasil.

“Importante é vacina no braço para a gente não ter mais mortes”.

 

Fonte: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/03/12/a-pesquisadora-que-transformou-decadas-de-laboratorio-na-primeira-vacina-100percent-brasileira-contra-a-de

‘A nova vacina é muito promissora, e a dengue passará por uma mudança de paradigma’, diz novo diretor de programa especial da OMS

Marcus Lacerda assumirá programa voltado às doenças tropicais e em entrevista exclusiva fala sobre controle da malária, desafios impostos pela dengue e por que mudanças climáticas ameaçam tanto os sistemas de saúde

Por 

Mariana Rosário

 — São Paulo

24/02/2026 04h30  Atualizado há 4 semanas

Marcus Lacerda: médico brasileiro assumirá diretoria de programa da OMS

Os últimos 25 anos marcam uma evolução no cuidado com a malária. Os casos reduziram de maneira drástica e há um bom medicamento em uso. O que falta para sonharmos com a eliminação dessa doença?
Todas essas doenças tropicais estão relacionadas com populações vulneráveis. Então, às vezes o que falta não é a ferramenta. Na malária, por exemplo, eu tenho tratamento. Não tenho uma vacina para esse tipo de malária que temos no Brasil, mas tenho diagnóstico e tratamento que funcionam muito bem. Então por que eu não consigo eliminar? Porque não posso fazer com que o diagnóstico e o tratamento cheguem igualmente a todas as populações. No Brasil, o aumento da malária ocorre em áreas indígenas e de garimpo. Nesses locais estão populações extremamente vulneráveis. Essas ferramentas, apesar de existirem, não chegam. Doença tropical é um nome que está caindo em desuso, porque tem muito a ver com a colonização britânica. Passamos a chamar de doenças de populações negligenciadas ou vulneráveis. Isso coloca em contexto quem está ficando doente.

Qual dessas doenças não seria um problema tão sério se ocorresse em países desenvolvidos?
A vacina da dengue vai mudar um pouco o jogo. Não devemos esquecer, porém, que para uma pessoa que tem dengue grave e vai à UTI não há um medicamento para usar. Será que não vale a pena investir em drogas para dengue também? É preciso investir na prevenção e no tratamento, pois a doença continua existindo. Há essa dicotomia na saúde hoje. A Covid mostrou isso para nós. Existia gente que queria tratar e havia gente que queria a vacina. Na verdade, as duas coisas vão em paralelo. Eu não posso separar uma coisa da outra. A dengue passará por uma mudança de paradigma. A nova vacina é muito promissora. A vacina que já existe (da farmacêutica Takeda) não teve esse impacto todo porque precisa de duas doses. A do Butantan, por sua vez, é usada em dose única. No caso da malária, temos ferramentas, mas há problemas de acesso de populações vulneráveis. Na África há ainda a resistência às medicações, o que é um desafio à parte. A vacina de chikungunya, por sua vez, poderá eliminar a doença, definitivamente, quando for introduzida. Porque essa doença tem um padrão, acontece em focos. E a vacina poderia justamente interrompê-los.

O senhor já viu essa resistência a medicamentos, vacinas ou a buscar o serviço de saúde no Brasil? O movimento antivacina fez algum barulho na pandemia...
O SUS é relativamente forte. A população conseguiu superar, digamos assim, a Covid-19. Acho que temos um cenário muito diferente. Não porque o governo mudou a orientação política dele, mas é porque eu acho que a pandemia trouxe um debate que foi completamente desvirtuado (naquele tempo). Se usou a saúde como forma de manipulação de massas, mas eu acho que hoje a gente começou a ter uma reorganização desse sistema. O que eu percebo é que o SUS continua crescendo. A questão das vacinas é que à medida que as doses estão disponíveis para a população, as pessoas vão recebê-las. Não vejo nenhuma resistência a tratamentos. O que eu vejo é uma grande desigualdade social que segue existindo.

Quais são os desafios, então, de se trabalhar com doenças tropicais?
Essas doenças não representam mais o que representavam na década de 1960. Malária não é o que mata mais, são 50 mortes em um ano inteiro. Agora, ao pegar doenças relacionadas à obesidade, doenças cardiovasculares e violência, os números são muito maiores. É preciso, então, abandoná-las? Não, porque essas doenças voltam. É preciso lembrar que o vírus da zika foi descoberto há mais de 50 anos na África. Ele, contudo, volta anos depois no Brasil causando essa tragédia que são as crianças com deformidades. Essas doenças, se não forem eliminadas, virão a ser uma grande praga que não deixarão a gente avançar em outras áreas.

Como as mudanças climáticas complicam esse jogo?
A primeira coisa é que há doenças que estão indo para áreas onde não existiam antes, especialmente aquelas que dependem de vetores. Com o aumento da temperatura os mosquitos se adaptam melhor, então é fato que eu tenho locais que não tinham aquele vetor e passam a ter. E o sistema de saúde não está preparado para aquela doença. Quem morre de malária no Brasil? Pessoas em estados que não costumam ter casos. Em locais assim, a pessoa tem febre, busca o serviço, mas o médico que cuida não ouviu falar de malária. Essa é a pessoa que vai morrer de malária. Então é preciso lembrar que cada vez que acontece uma doença em um local em que ela nunca existiu, não dá para treinar tão rapidamente as pessoas para diagnóstico e tratamento. Outra questão é relacionada à condição do indivíduo. Por conta das mudanças climáticas, algumas pessoas podem ter menos acesso à alimentação e começam a ficar desnutridas. Especialmente as crianças podem ter doenças mais ou menos graves dependendo do estado de nutrição. Então, existe uma cadeia de impactos que nem sempre são observados, mas que são fundamentais. A grande questão da mudança climática é que os hospitais vão começar a atender um número de pessoas muito maior do que o que estão preparados para receber.


Olhando para seus 25 anos de trabalho na Amazônia, qual balanço faz do avanço do Brasil nesse tempo?

Avançamos em muita coisa. Acho, porém, que a política tem impactado muito as decisões técnicas. A minha avaliação é que o Brasil transformou a política em seu principal foco. Nesses 25 anos eu acho que a política tomou mais conta das áreas técnicas. Ficou claro na Covid-19 que a política dominou a área técnica. Mas esse embate entre o político e o técnico não tem que existir. Quando eu tenho um problema técnico, é o técnico que tem que resolver sempre. Não há um país onde um político tome decisões que competem aos técnicos. Da mesma forma, um técnico muitas vezes não está preparado para assumir um cargo político.


Fonte:https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/02/24/a-nova-vacina-e-muito-promissora-e-a-dengue-passara-por-uma-mudanca-de-paradigma-diz-novo-diretor-de-programa-especial-da-oms.ghtml

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