O VÍCIO QUE TODOS DEFENDEM-PARTE 1 : A PIRULA ANTI-CONCEPCIONAL

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Arte de Betty Baker
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O vício que todos defendem – parte 1


Pode parecer surreal, mas estamos viciadas numa droga: a pílula anticoncepcional
Você já tentou parar de tomar pílula?
Os médicos torcem o nariz, as amigas entram em choque e os familiares – esses nem podem ficar sabendo. A decisão de abandonar a pílula é considerada uma ideia absurda, um desleixo, mesmo quando motivada por efeitos colaterais incômodos, riscos à saúde e a procura de um método contraceptivo menos invasivo. A postura dos parceiros também costuma ser um entrave – com a recusa da camisinha ou de métodos que exigem sua participação. Além da pressão social, ainda aparecem os efeitos da abstinência – que são muito pouco difundidos – e, no fim das contas, muitas mulheres desistem. Mas se você for conversar com aquela sua tia ou amiga mais natureba, vai descobrir que ela nunca tomou nem quis tomar esse medicamento. E não saiu tendo filho a torto e a direito, nem arriscando a saúde sem saber. Por quê, afinal, estamos viciadas na pílula?
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É, de fato, um fenômeno geracional. Enquanto a mulher da chamada “geração pílula” conheceu esse método apenas no início de sua vida conjugal, hoje a pílula já é prescrita de maneira preventiva, desde a primeira consulta ao ginecologista. Enquanto as escolarizadas dispõem de mais opções, quase 80% das mulheres de menor nível educacional já começam tomando pílula. Ela corresponde ao principal método contraceptivo temporário utilizado atualmente no Brasil, com um índice de 38% de uso entre as mulheres que se previnem – mais do que todos os outros métodos temporários somados (32%). Para ter uma ideia, só 18% das brasileiras usam camisinha!
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A indústria farmacêutica é a principal interessada nesse quase-monopólio. A pílula é o produto farmacêutico perfeito: um remédio feito para ser tomado diariamente, sem a necessidade de doença, durante boa parte da vida de uma parcela enorme da população. No Brasil, o número é de quase 27 milhões de potenciais consumidoras – um mercado impressionante. Para ver como a indústria está confortável com a sua situação: a fórmula básica da pílula é a mesma há quase um século – ela foi introduzida nos anos 1920. Mesmo as demais tecnologias de contracepção hormonal (implante, adesivo) foram desenvolvidas lá nos anos 1960 e 1970. Há mais de 50 anos, o consumo desse medicamento “como água” garante o lucro da indústria.
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Mas será que a pílula é mesmo tão superior aos outros métodos?
A infabilidade da pílula, na verdade, é uma ilusão: todo método contraceptivo tem um índice de falha. E o da pílula não é nem o maior: seu índice de sucesso (91%) é intermediário entre o diafragma (88%) e o DIU (99%). Além disso, o mais usual e recomendado é a combinação de 2 ou mais métodos para multiplicar a eficácia contraceptiva, assim como a sensação de proteção. Afinal, se a gente confiasse tanto assim na pílula anticoncepcional, não tomaria pílula do dia seguinte nem faria teste de gravidez com tanta frequência. Segundo um estudo da USP, a maior parte dos jovens recorre à contracepção de emergência por insegurança. Que método ideal é esse, que nos deixa tão inseguras?
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Veja uma tabela com uma conta simples de probabilidade, com a pílula e alguns métodos contraceptivos não hormonais. Os valores variam pouco entre alguns métodos isolados e combinações. Somente o DIU, que depende de um procedimento cirúrgico para implantar, tem sozinho taxa de eficácia de 99%.

tabela
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Atenção 1: Fertilidade consciente não é tabelinha, é um conjunto de métodos também conhecidos como sintotérmicos, baseados na identificação da fertilidade por sintomas como temperatura basal, muco e textura da cérvice (Fertility Awareness Methods – FAM).
Atenção 2: Coito interrompido é um método considerado inseguro especialmente se utilizado sozinho – mas não falar dele é ignorar a realidade.
Atenção 3: Só a camisinha protege contra as DST. Escolher não usar camisinha é um comportamento de risco.
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Por outro lado, o uso da pílula já como prevenção da gravidez acaba por estimular o abandono do preservativo entre os jovens. Isso porque enxergamos a proteção em dois níveis: primeiro contra gravidez, depois contra DST. Assim, uma vez que a mulher toma o anticoncepcional e a relação é considerada “de confiança”, assume-se que a camisinha pode ser abandonada – e sem ela entram todos os riscos do sexo inseguro.
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Outra diferença da pílula para alguns desses métodos não hormonais – como os 2 tipos de camisinha, o coito interrompido e a fertilidade consciente – é que eles exigem a participação do parceiro na contracepção. Isso incide diretamente sobre o modo com que vivemos nossas relações. É muito comum a recusa do homem em usar camisinha, pelas mais variadas desculpas, mas que colocam em risco a saúde especialmente da mulher. Alegando não sentir prazer, acusando a parceira de não confiar nele, ou dizendo simplesmente que “não serve”, muitos homens rejeitam as várias opções de preservativo e colocam toda a responsabilidade – e o risco – na mulher. Isso sem falar de todos os efeitos colaterais da contracepção hormonal, que tratarei mais para frente.

Mas, se a pílula não é o melhor contraceptivo, porque esse consumo obsessivo?
Essa pergunta eu deixo para responder na segunda parte desse post, já que esta ficou enorme. Por enquanto, ficam algumas indicações de leitura.

Referências
A experiência com contraceptivos no Brasil: uma questão de geração. UFSC, 2012 2 Pesquisa Nacional de Saúde da Criança e da Mulher. Ministério da Saúde, 2006 3 How the Pill Became a Lifestyle Drug. American Journal of Public Health, 2015 4 Bedsider 5 Estudo aponta que uso da pílula do dia seguinte é alto entre jovens. D24am, 2013 6 Uso de contracepção de emergência e camisinha entre adolescentes e jovens. Revista SOGIA-BR, 2005 7 Sweetening The Pill, 2013 8 The Pill: Are you sure it’s for you?

Fonte:https://rereavila.wordpress.com/2015/02/26/o-vicio-que-todos-defendem-parte-1/

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