BRAÇOS FORTES SÃO NOVO IDEAL DE BELEZA FEMININO: EMPODERAMENTO OU MODISMO? ESPECIALISTAS DISCUTEM A NOVA TENDÊNCIA
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Braços fortes
são o novo ideal de beleza feminino: empoderamento ou modismo? Especialistas
discutem a nova tendência
Com as canetas, a magreza ficou mais
fácil, mas braços torneados ainda exigem muito treino
Por
Constança
Tatsch
— São Paulo
18/03/2026 04h30 Atualizado há 3
horas
Durante muito tempo, o ideal de beleza para o braço feminino era um membro magro e delicado. Bíceps muito grandes ou tríceps mais marcados não eram considerados tão bonitos, mas os tempos são outros: agora, as mulheres querem braços fortes.
Antes da questão estética, há uma dimensão física. Hoje, todo mundo já entendeu que músculos são sinônimo de saúde, proporcionando uma vida mais longa e com maior independência. Isso vale para o corpo todo, pernas, abdômen, costas, e, claro, braços.
O preparador físico e colunista do GLOBO Marcio Atalla conta que quando está na academia, costuma ouvir de todas, inclusive das mulheres com mais de 70 anos, que “hoje é dia de treinar braço”, mostrando como a musculação passou a ser importante para todos os perfis.
— O Brasil vai ter daqui a pouco mais pessoas acima de 60 do que abaixo de 18, e queremos viver esses anos com muita autonomia. Você carregar uma sacola, pegar sua mala, colocar as coisas no lugar, tudo isso é importante. A maior bandeira que eu levanto é a de viver o máximo de tempo possível com autonomia, sem dependência. Fazemos as coisas e precisamos de músculo, de força, por isso esse trabalho hoje é mais valorizado — avalia.
Segundo Atalla, nos últimos 10 anos, o Brasil passou a admirar não só o look esguio de Gisele Bündchen, mas também a força de Gracyanne, e isso leva as pessoas a buscarem um corpo mais robusto.
Dificuldade para definir
No entanto, pelo menos em termos de treino, conquistar um braço torneado segue sendo um desafio para a estrutura corporal feminina. Primeiro porque os músculos dos braços são bem menores, por exemplo, do que os das pernas. Segundo porque são lugares onde as mulheres têm menos receptores para queima de gordura — daí a dificuldade de eliminar aquela gordurinha do “tchauzinho”.
— É muito difícil para elas conseguirem aquele braço sequinho, definido e forte, também por uma questão hormonal. Para isso, ela vai ter que ter uma genética muito boa e treinar bastante. Agora, o que fica de bom nessa história é a consciência que é legal você malhar o corpo como um todo.
Popeye e Olivia
Ainda que seja difícil de alcançar na prática, essa mudança de paradigma estético também traz muita simbologia. A história dos gigantescos bíceps do marinheiro Popeye, o heroi forte que precisava salvar a donzela magérrima, Olívia Palito, já não encanta tanto quanto no passado.
Para a psicóloga Julia Bittencourt, autora dos livros “Psicologia e saúde da mulher” 1 e 2, essa mudança é “uma questão cultural mesmo, da mulher em cada época da sociedade”.
— Antigamente a mulher era cuidada. Tinha que ter essa feminilidade, o braço fininho. Era o bonito, essa delicadeza, essa imagem frágil. E hoje a mulher é empoderada. Com o feminismo, o reposicionamento da mulher na sociedade, isso acaba sendo visto também através do corpo, porque o corpo comunica muito. A mulher é forte, tem um braço forte — diz Bittencourt.
Segundo a psicóloga, a mulher hoje dá conta de tudo, e isso se manifesta na vida prática mesmo.
— O braço tem esse símbolo de carregar. Antes, a mulher tinha que ter um companheiro, um homem para ajudar. Agora, ela cuida de si mesma, não precisa pedir ajuda para botar a mala no avião, levar um monte de compras. Essas coisas eram associadas ao homem e agora a própria mulher faz. Acaba sendo um símbolo que expressa força, autocuidado, independência.
Ela lembra ainda que a roupa de academia também passou a ser valorizada pela sociedade, associando o autocuidado com status — de poder ter tempo e dinheiro para cuidar do corpo.
Além disso, enquanto o eterno treino de glúteos e pernas muitas vezes tem a intenção de conseguir um corpo que seja desejado pelos homens, os braços não são um fator de atração para o olhar masculino, talvez impactando mais na atenção das próprias mulheres, quer invejando ou incentivando a conquista.
Mais uma cobrança
No entanto, o que parece ser um símbolo de independência e poder, pode também ser uma outra prisão, caso não haja limites para a cobrança estética.
— Vira um sonho de consumo, e vejo que vem com peso também. Tem mulheres que falam “ah, eu malho e não fico assim”. Claro, é uma estética de pessoas que treinam 4 horas por dia, enquanto você tem seu trabalho, cuida do seu filho, arruma a casa. Aí as mulheres se sentem frustradas, incapazes, inadequadas, excluídas. E isso acaba sendo mais uma cobrança, e vira mais esse controle do corpo feminino — pondera a psicóloga.
É nessa linha que segue a doutora e pesquisadora de narrativas sobre mulheres Maria Carolina Medeiros, professora da FGV Comunicação:
— Toda hora o ideal de beleza muda, e aí tem todo um movimento de consumo, porque para ter esse braço torneado, vai precisar ir para a academia, ou às vezes suplementar de alguma maneira. Uma época dizem que bonito é ter seio grande, então tem uma moda de botar silicone, depois diz "não, bonito é ter pequeno", e aí tem uma moda dos explantes, uma hora é a sobrancelha mais grossa e aí tem o boom da micropigmentação, depois não é mais tão bonito. Estamos falando de movimentos que têm a mesma raiz, que é uma incompletude da mulher.
De acordo com a pesquisadora, houve uma mudança de compreensão, no início do século XX, no Brasil mais forte a partir dos anos 1950, de que a beleza pode ser adquirida. Até então havia uma noção de que a beleza era um dom divino, ou nasce com ou nasce sem.
—Então a beleza não é uma coisa mais divina, mas fruto de esforço, de sacrifício, e passa então a ter um significado de moralidade, ou seja, se eu sou feia, eu sou desleixada — explica Maria Carolina. — É onde eu acho que entram os braços esculpidos, pelas análises que eu tenho feito da observação desse fenômeno: com as canetas para o emagrecimento ficou mais fácil ficar magra, e aí entra esse signo de que “estou me esforçando o suficiente, porque sou disciplinada”. Ter um corpo esculpido, com esse braço torneado, só vem pelo esforço e pelo exercício físico.
Outro aspecto interessante da valorização dos braços é que eles estão muito mais expostos, por exemplo, do que o abdômen, que praticamente só aparece na praia.
— O ideal da beleza cada hora vai para um lado, são os braços agora, no passado já foram outras coisas e no futuro serão outras, então eu não acho que é um fenômeno isolado. É multifatorial. Tem a dimensão estética, a questão da saúde e a coisa de se diferenciar pelo esforço.
Fonte:https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/03/18/bracos-fortes-sao-o-novo-ideal-de-beleza-feminino-empoderamento-ou-modismo-especialistas-discutem-a-nova-tendencia.ghtml
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